20051110

"Cantiga quase de roda"

(Thiago de Mello)

“Na roda do mundo/ lá vai o menino./ O mundo é tão grande/ e os homens tão sós./ De pena, o menino/ começa a cantar./(Cantigas afastam/ as coisas escuras.)/ Mãos dadas aos homens,/ lá vai o menino,/ na roda da vida/ rodando e cantando./ A seu lado, há muitos/ que cantam também:/ cantigas de escárnio/ e de maldizer./ Mas como ele sabe/ que os homens, embora/ se façam fortes,/ se façam grandes,/ no fundo carecem/ de aurora e de infância/ - então ele canta/ cantigas de roda/ e às vezes inventa/ algumas - mas sempre/ de amor ou/ de amigo.”

“Cantigas que tornem/ a vida mais doce/ e mais brando o peso/ das sombras que o tempo/ derrama, derrama/ na fronte dos homens./ Na roda do mundo/ lá vai o menino,/ rodando e cantando/ seu canto de infância.”

“Mas lá nas funduras/ do peito, outro canto/ lhe nasce e ressoa/ - erguido de assombros/ e de escuridões./ Vazio de infância,/ varado de dores,/ é o canto mais triste/ que as noites ouviram./ Porquanto o menino/ não deixa que o mundo/ lhe escute esse canto/ doloroso e inútil./ Pois sabe que os homens/ embora se façam/ de graves, de fortes,/ no fundo carecem/ de claras cantigas/ - senão ficam ocos,/ senão endoidecem.”

“E então ele segue/ cantando de bosques,/ de rosas e de anjos,/ de anéis e cirandas,/ de nuvens e pássaros,/ de sanchas senhoras/ cobertas de prata,/ de barcas celestes/ caídas no mar./ Na roda do mundo,/ mãos dadas aos homens,/ lá vai o menino/ rodando e cantando/ cantigas que façam/ a vida mais doce,/ cantigas que façam/ os homens mais crianças.”

“EPITÁFIO:/ O canto desse menino/ talvez tenha sido em vão./ Mas ele fez o que pôde./ Fez sobretudo o que sempre/ lhe mandava o coração.”

PS- com ordem do coração não se discute, “é preciso trabalhar todos os dias pela alegria geral; é preciso aprender esta lição todos os dias e sair pelas ruas cantando e repartindo, a mão cristalina, a fronte fraternal”...

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