20060901

Navegando com Barão de Itararé

"Quando a violência da ditadura torna-se intolerável, às vezes uma das poucas armas de resistência popular é o humor. E disso entendia muito bem o jornalista Aparício Torelly, autonomeado com o pseudônimo de Barão do Itararé, vereador do Rio de Janeiro, eleito e cassado em 1947 pelo Partido Comunista, para enfrentar tanto a polícia secreta do Estado Novo, como a democracia pós-45 que colocou seu partido na ilegalidade. Uma de suas máximas é que, cansado de apanhar ao ser preso, inventou a famosa frase "Entre sem bater", que acabou se tornando um corriqueiro lembrete de cortesia nas portas de escritórios."
"O apelido Barão de Itararé, inventado por ele, foi criado para gozar a famosa batalha de Itararé, que nunca houve. Nesta cidade, os revoltosos constitucionalistas de São Paulo se concentraram para barrar as forças do Governo Provisório de Getúlio Vargas, as quais apenas passaram ao largo, ignorando completamente os valentes combatentes paulistas."
O Barão de Itararé foi um mestre do humor, então, abaixo eu compartilho um de seus textos que selecionei para ilustrar o seu raro talento:

“A vida tem surpresas admiráveis. Surpresas e lições de estarrecer. Há certos fatos, porém, que não nos causam nenhuma admiração. Não porque não sejam em si admiráveis, mas porque eles nos deixam bestificados que nos tiram até a capacidade de raciocinar. É verdade que a capacidade de abrir mais ou menos a boca, movida pelo espanto, varia de indivíduo para indivíduo. Uns esbugalham os olhos diante do fenômeno mais natural, ao passo que outros acham mais que natural o fenômeno mais esbugalhante. Os que se julgam espertos acham que só os tolos se admiram. Os que se maravilham de qualquer coisa, por sua vez, se surpreendem da impassibilidade dos sabidos, aos quais consideram lamentáveis cegos e inconscientes. O ladino se admira do tolo e não pode compreender como este possa se admirar de uma bobagem. O tolo, por seu turno, se admira de que o ladino não se admire de coisa alguma, quando ele próprio acha tudo admirável. O tolo se admira de tudo porque vê em tudo uma verdade para ser admirada. O tolo, então, raciocina e tira uma conclusão e, portanto, não é tolo. O inteligente vê o fenômeno e não se admira, porque não vê nada de admirável no que vê. Mas o homem que não chega a ver até o que os tolos vêem não pode ser um homem inteligente. De tudo isso só se pode concluir que o tolo, afinal, é um inteligente e que o inteligente é um tolo. Não é isso admirável?”.

1 Comments:

Anonymous Ordisi said...

Essa bateu forte, Álvaro, hehehe.

Abraço.

8:40 AM  

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