20051031

Sobre a morte do amor

Recebi um e-mail com o seguinte texto do Alexandre Inagaki:
“Pequeno tratado sobre a mortalidade do amor: Todos os dias morre um amor. Quase nunca percebemos, mas todos os dias morre um amor. Às vezes melodraticamente, como nas piores novelas mexicanas, com direito a bate-bocas vexaminosos, capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos. Morre em uma cama de motel ou em frente à televisão de domingo. Morre sem beijo antes de dormir, sem mãos dadas, sem olhares compreensivos, e com um gosto dolorido de lágrima nos lábios. Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados, cartas cada vez mais concisas e beijos que se esfriam aos poucos. Morre da mais completa e letal inanição. Todos os dias morre um amor, embora nós, falsos românticos, relutemos em admitir, porque nada é mais dolorido do que a constatação de um fracasso, e de saber que, mais uma vez, um amor morreu, porque, por mais que não queiramos aprender, a vida sempre nos ensina alguma coisa, inclusive a lição é de que o amor também morre. Todos os dias um amor é assassinado, com a adaga do tédio, a cicuta da indiferença, a força do escárnio, a metralhadora da traição. A sacola de presentes devolvidos, os ponteiros tiquetaqueando no relógio, o silêncio insuportável depois de cada discussão, pois, afinal, todo crime deixa evidências. Todos nós fomos assassinos um dia. Há aqueles que, como Lee Osvald, se refugiam em salas de cinema vazias, ou que preferem se esconder debaixo da cama, ao lado do bicho-papão. Outros confessam sua culpa em altos e retumbantes brados, fazendo de latrina os ouvidos de infelizes garçons. Há aqueles que negam, veementemente, a participação no crime, e buscam por novas vítimas em salas cibernéticas ou pistas de danceterias, sem dor ou remorso. Os mais audaciosos aproveitam sua experiência de criminosos para escrever livros de auto-ajuda (com nomes paradoxais como: “O amor inteligente”), ou romances açúcarados de banca de jornal (do tipo: “A paixão tem olhos azuis”), difundindo ao mundo ilusões fatais aos corações sem cicatrizes. Existem os amores, em corações feridos, que clamam por um tiro de misericórdia. Existem os amores-zumbis, aqueles que se recusam a admitir que morreram. São capazes de perdurar anos, mortos-vivos sobre a Terra, teimando em resistir à base de cama separadas, beijos burocráticos, sexo sem T. Estes não querem ser sacrificados, e, à semelhança dos zumbis-holywoodianos, também se alimentam de cérebros humanos, que definharão até se tornarem laranjas chupadas. Existem os amores-vegetais, aqueles que vivem em permanente estado de letargia, comuns principalmente entre os amantes platônicos que recordarão até o fim de seus dias o sorriso daquela coleguinha de escola, ou nas fãs que até hoje suspiram em frente ao pôster de seu ídolo. Mas titubeio em dizer que isso possa ser classificado como amor (Isso não é amor. Amor vivido só do pescoço para cima e da cintura para baixo não é amor). Existem, por fim, os amores-fênix. Aqueles que, apesar da luta diária pela sobrevivência, contas a pagar, da paixão que escasseia com o decorrer dos anos, da mesa-redonda no final de domingo, das calcinhas penduradas no chuveiro e das brigas que não levam a nada, ressuscitam das cinzas a cada final de dia, e perduram, teimosos e belos; e cegos, mas intensos. Mas estes são raríssimos, e há quem duvide de sua existência. Alguns os chamam de amores-unicórnio, porque são de uma beleza tão pura e rara, que jamais poderiam ter existido, a não ser em lendas. Mas não quero acreditar nisso. Um dia vou colocar um anúncio bem espalhafatoso no jornal: PROCURA-SE, AMOR FÊNIX (ofereço generosa recompensa!).”

A relação humana (xy-xx) é mesmo complicada! Então, como ficamos?....

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